Não está no ranking da FIFA. Não disputa eliminatórias. Não pode se classificar para uma Copa do Mundo. Seus jogadores nem sequer precisam possuir cidadania vaticana.
Mesmo assim, o menor Estado independente do planeta tem uma representativa masculina, uma equipe feminina, camisa oficial, hino antes dos jogos e uma história recente de partidas internacionais mais ativa do que muita gente imagina. Em junho de 2026, por exemplo, a equipe masculina venceu o KSV Johannisthal, clube amador de Berlim, por 5–1, em Roma, com direito a hino e bandeiras antes da bola rolar. Era o terceiro capítulo de uma pequena e improvável rivalidade entre Vaticano e Berlim — e essa é só a ponta mais recente de uma história que vale a pena contar por inteiro.
Mas afinal: o Vaticano tem uma seleção de verdade?
A resposta curta é: sim — mas não como Brasil, Argentina ou Itália.
O nome usado pela organização responsável pelo futebol local é Rappresentativa di Calcio dei Dipendenti Vaticani — a representativa de futebol dos funcionários do Vaticano. A própria Federação Italiana de Futebol (FIGC) já a descreveu oficialmente como “Rappresentativa di Calcio dei Dipendenti Vaticani (la Nazionale)”, e a FIFA, em uma reportagem de 2020, chegou a usar a expressão national team para as equipes masculina e feminina. A particularidade é que o Estado não é filiado à FIFA, e os jogadores são escolhidos dentro da comunidade de funcionários do Vaticano — e, historicamente, também entre familiares.
Um futebol mais antigo do que parece
O primeiro jogo oficialmente registrado é de 13 de abril de 1946: um amistoso entre os funcionários administrativos e os funcionários do Governatorato, do qual não se conhece o placar. Em 1947 veio o primeiro torneio propriamente dito, um quadrangular cuja final — entre as Villas Pontifícias e a Fábrica de São Pedro — precisou ser interrompida após uma briga entre jogadores e torcida.
Só em 1972 o futebol vaticano ganhou uma estrutura permanente: Sergio Valci, apoiado pelo cardeal Sergio Guerri, organizou o primeiro campeonato com o nome de Coppa dell'Amicizia, disputado por sete equipes. Depois vieram a Coppa Vaticana (1985) e a Supercoppa (2007). As equipes representam diferentes departamentos: Museus Vaticanos, Gendarmeria, Arquivo Apostólico, Guarda Suíça, Rádio Vaticana, Governatorato, Farmácia, Tipografia, Ospedale Bambino Gesù, entre outros.
2018–2019: nasce a representativa feminina
Em 2018, foi formada uma equipe feminina com funcionárias do Vaticano. Sua estreia pública aconteceu em 26 de maio de 2019, diante da equipe feminina da AS Roma, no Campo Pio XI — derrota por 10–0, um placar que refletia mais a diferença entre uma equipe recém-formada e um clube profissional da primeira divisão italiana do que a relevância do projeto em si.
Semanas depois, um amistoso marcado em Viena contra o FC Mariahilf acabou não sendo disputado: durante o hino vaticano, jogadoras austríacas ergueram as camisas e exibiram mensagens a favor da legalização do aborto, provocando o cancelamento da partida antes mesmo do apito inicial.
📷 Fotos e contexto da equipe feminina — reportagem da FIFA
2020–2021: quando a camisa vira protagonista
Com a Covid-19, quase toda a atividade esportiva do Vaticano parou. Mas foi durante a pandemia que nasceu a ideia que redefiniu a camisa vaticana: um dos diretores da Sport in Vaticano teve a intuição de vender ao público, pela primeira vez, a camisa oficial, o agasalho de treino, a mochila e o boné da Rappresentativa. Metade da receita seria destinada às obras de caridade do papa Francisco, e a outra metade financiaria a participação da própria equipe em atividades beneficentes.
A camisa “nº 1 Francesco”
Em 23 de junho de 2021, o papa Francisco recebeu, durante uma audiência, a primeira unidade da camisa personalizada com o número 1 e o nome “Francesco” nas costas. Nos meses seguintes, versões personalizadas também foram entregues a cardeais, bispos e diretores de dicastérios como forma de agradecimento pelo apoio ao projeto.
30 de julho de 2021: a camisa chega às lojas dos Museus Vaticanos
A Sport in Vaticano descreve a data como histórica: pela primeira vez, a camisa oficial passou a ser vendida diretamente ao público, nas lojas dos Museus Vaticanos e no comércio de vestuário do Governatorato. Peças como essa e a versão comemorativa dos 50 anos seguem catalogadas até hoje na loja oficial dos Museus Vaticanos.
📷 Arquivo fotográfico oficial — Sport in Vaticano
Novembro de 2021: nasce a Fratelli Tutti
Ainda em 2021, surgiu uma segunda equipe, batizada em referência à encíclica de Francisco sobre fraternidade universal: a Fratelli Tutti, o “time do Papa”. Reunia Guardas Suíços, funcionários vaticanos e seus filhos, padres da Secretaria de Estado e da Cúria, membros da Pontifícia Academia Eclesiástica, três jovens migrantes e um atleta com síndrome de Down ligado às Special Olympics — elenco montado para enfrentar a World Rom Organization em Formello, no centro de treinamento da Lazio.
A camisa, fornecida pela Erreà, era amarelo-ouro com ombros e mangas brancos, com o brasão pontifício e a frase “Fratelli Tutti” estampados. A Fratelli Tutti nunca substituiu a Rappresentativa oficial — é uma seleção especial, montada para eventos de caráter social.
2022: uma partida pela paz, os 50 anos — e uma conversa sobre a UEFA
Em 24 de março de 2022, a Sport in Vaticano enfrentou a Rappresentativa do Ospedale Pediatrico Bambino Gesù na chamada Partita della Pace, no Campo Pio XI. A iniciativa nasceu de uma faixa desenhada por crianças internadas no hospital, como gesto contra a guerra na Ucrânia — e foi levada a campo pelas próprias enfermeiras e médicos do hospital, ao lado das jogadoras da Sport in Vaticano. O Vaticano venceu, mas o placar, segundo o próprio relato oficial, ficou em segundo plano diante do simbolismo do gesto.
Em maio, a associação completou 50 anos, com uma camisa comemorativa apresentada oficialmente na sede da FIGC, em Roma. Nas celebrações, veio à tona um detalhe pouco divulgado: o papa Francisco teria conversado sobre uma eventual filiação do Vaticano à UEFA com o próprio presidente da entidade, Aleksander Čeferin, durante uma visita deste ao Vaticano antes da final da Eurocopa 2020 (disputada em 2021). A conversa não teve desdobramento formal conhecido.
📷 Galeria oficial da FIGC — camisa dos 50 anos
2023: os jogos solidários — e o início do “Vatikan Cup” com Berlim
Em maio, uma formação da Fratelli Tutti enfrentou a Santa Devota, equipe de amigos e familiares ligados ao príncipe Alberto II de Mônaco, com vitória vaticana por 3–0. Pouco depois, uma Fratelli Tutti com 18 sacerdotes e seminaristas enfrentou o Variétés Club de France no Stadio dei Marmi, evento que reuniu ex-jogadores franceses como Arsène Wenger, Christian Karembeu e Robert Pirès — com “Fratelli Tutti” estampado no espaço normalmente reservado ao patrocinador.
Mas o episódio mais importante para a rivalidade recente veio em 17 de junho de 2023, em Roma: nasceu ali o que a imprensa alemã batizou de “Vatikan Cup”, uma série de amistosos com o KSV Johannisthal, clube amador ecumênico de Berlim, fundado há 40 anos na antiga Berlim Oriental. No jogo de ida:
- 🇻🇦 Vaticano 7–1 KSV Johannisthal 🇩🇪 (masculino)
- 🇻🇦 Vaticano 1–3 Pichanga FC 🇩🇪 (feminino — a equipe alemã venceu; foi tratado como o primeiro jogo internacional da equipe feminina nesse formato de intercâmbio)
Fevereiro de 2024: futebol com refugiados
Uma equipe Fratelli Tutti — funcionários vaticanos, sacerdotes, padres e seminaristas — enfrentou o Rinascita Refugees, projeto formado majoritariamente por migrantes e refugiados africanos. O capitão do time vaticano era uma pessoa assistida pela Cáritas de Roma, e a comunicação oficial insistiu na ideia de jogar “com”, e não simplesmente “contra”, o adversário.
Outubro de 2024: a revanche em Berlim
Em 12 de outubro de 2024, no Käthe-Tucholla-Stadion, em Berlim, veio o jogo de volta do Vatikan Cup — com bandeiras e hinos como num amistoso internacional “de verdade”:
- 🇩🇪 KSV Johannisthal 3–2 Vaticano 🇻🇦 (masculino), diante de cerca de 200 espectadores, com arbitragem do secretário de obras de Berlim, Christian Gaebler
- 🇻🇦 Vaticano 0–3 seleção KSV/Bonn-Endenich 🇩🇪 (feminino, já que o KSV não tem equipe própria — jogadoras do FV Bonn-Endenich 08 vestiram a camisa do clube anfitrião). Foi a primeira partida da equipe feminina fora da Itália, já que o amistoso de Viena em 2019 nunca chegou a começar.
Para o Vaticano, foi o único “jogo internacional” do calendário de 2024.
📷 Fotos do jogo em Berlim — Kicker
Abril–maio de 2025: a morte do papa Francisco e a eleição de Leão XIV
Em 21 de abril de 2025, segunda-feira de Páscoa, o papa Francisco morreu aos 88 anos, na Casa Santa Marta. No conclave que se seguiu, em 8 de maio de 2025, os cardeais elegeram o cardeal norte-americano Robert Francis Prevost, que assumiu o nome de Leão XIV — o primeiro papa dos Estados Unidos da história.
É um ponto de virada inevitável para esta história: até então, a camisa da Rappresentativa, a “camisa nº 1”, a Fratelli Tutti e boa parte da retórica de caridade e diplomacia esportiva estavam associadas pessoalmente a Francisco. A partir de maio de 2025, esse papel passa a Leão XIV — que, diferentemente de seu antecessor (torcedor confesso do San Lorenzo, de Buenos Aires), é mais associado ao tênis, mas que rapidamente mostrou também interesse pelo esporte em geral, incluindo o futebol que praticou quando seminarista no Peru.
Junho de 2025: o Jubileu do Esporte e a bênção de Cafu
O ano de 2025 já era, antes mesmo da morte de Francisco, o Jubileu — o Ano Santo que a Igreja Católica celebra a cada 25 anos, e que trouxe milhões de peregrinos a Roma sob o lema "Peregrinos da Esperança". Foi dentro desse calendário que aconteceu, em 14 e 15 de junho de 2025, o Jubileu do Esporte (ou Jubileu dos Esportistas), já sob Leão XIV, reunindo atletas profissionais e amadores em Roma.
Um dos momentos mais compartilhados do evento: em 11 de junho de 2025, durante uma audiência geral, o ex-lateral brasileiro Cafu, capitão do pentacampeonato de 2002, entregou ao papa Leão XIV uma camisa autografada da Seleção Brasileira — um gesto que a torcida associou, nas redes sociais, à recém-conquistada vaga do Brasil na Copa do Mundo de 2026. Na ocasião, Leão XIV também recebeu dois livros da escritora Mariah Morais. Em sua homilia do Jubileu do Esporte, o papa definiu o esporte como "um caminho para construir a paz, porque é uma escola de respeito e lealdade".
2025–2026: futebol interno forte, seleção internacional rara — mas viva
Enquanto isso, o futebol doméstico do Vaticano seguiu ativo: em 2025, o Archivio venceu a Coppa Vaticana por 4–1 sobre o Dirseco, e em março de 2026 começou mais uma edição do Campionato Vaticano, com oito equipes. O site oficial também deu espaço, em 2025, à representativa feminina, contando a história da religiosa Suor Livia, jogadora que combina vida consagrada e futebol.
Em junho de 2026, o Vaticano dedicou sua intenção de oração mensal aos "valores do esporte", às vésperas da Copa do Mundo — e foi nesse contexto que aconteceu o terceiro capítulo do Vatikan Cup.
5 de junho de 2026 — o terceiro encontro com Berlim
No Centro Sportivo Pio XI, em Roma, com vista para a cúpula de São Pedro:
- 🇻🇦 Vaticano 5–1 KSV Johannisthal 🇩🇪 (masculino) — dois tempos de 40 minutos; o Vaticano abriu 2–0, sofreu um gol e fechou em 5–1.
- 🇻🇦 Vaticano 1–9 SV Askania Coepenick 🇩🇪 (feminino) — jogo em formato 9 contra 9 por causa do tamanho do campo disponível; 7–0 no intervalo, 9–1 no final.
Foi o terceiro encontro entre as equipes de Berlim e do Vaticano desde os primeiros contatos, em 2022.
📷 Fotos oficiais do jogo — Vatican News (alemão)
Placar agregado da rivalidade Vaticano x Berlim
| Ano | Local | Resultado (masculino) | Resultado (feminino) |
|---|---|---|---|
| 2023 | Roma | Vaticano 7–1 KSV Johannisthal | Vaticano 1–3 Pichanga FC |
| 2024 | Berlim | KSV Johannisthal 3–2 Vaticano | Vaticano 0–3 seleção KSV/Bonn-Endenich |
| 2026 | Roma | Vaticano 5–1 KSV Johannisthal | Vaticano 1–9 SV Askania Coepenick |
As camisas: por que valem a pena colecionar
Ao contrário de seleções tradicionais, o Vaticano nunca teve uma linha comercial ampla, renovada todo ano e distribuída globalmente. A camisa passou pela Diadora, depois pela Sportika SA, até chegar à Joma, em 2021 — justamente o ano em que, pela primeira vez, o uniforme foi colocado à venda para o público dentro dos Museus Vaticanos. A Fratelli Tutti teve fornecedor próprio, a Erreà. E, mais recentemente, a identidade do Jubileu 2025/26 passou a aparecer em peças específicas, ligadas a esse Ano Santo que atravessou dois pontificados.
É exatamente essa escassez — a ausência de uma “linha anual” como a de uma seleção da FIFA — que transforma cada uma dessas camisas em peça de colecionador: a camisa nº 1 “Francesco”, a versão dos 50 anos, a Fratelli Tutti da Erreà, as peças do Jubileu. Cada uma carrega um pedaço específico dessa história recente — pandemia, caridade, luto, sucessão papal, inclusão — que dificilmente se repete.
É esse nicho que a Garrincha Shirts atende: vendemos camisas de futebol do Vaticano e de outras seleções e clubes fora do circuito comercial tradicional. No catálogo atual, por exemplo, estão peças ligadas justamente a essa fase mais recente:
- Vaticano · Camisa Preta · Joma — R$ 340
- Vaticano · Jubileu 2025/26 — R$ 280
- Vaticano · Polo Amarela · Jubileu 2025 · Joma — R$ 380
Quem se interessou por essa história — da seleção feminina de 2019 ao terceiro Vatikan Cup em 2026, passando pela camisa que o próprio papa Francisco vestiu e pela transição para o papa Leão XIV — pode conferir o catálogo completo em garrinchashirts.com.
Por que não FIFA, não UEFA
O Vaticano é um dos poucos Estados soberanos totalmente reconhecidos cujas seleções não são filiadas à FIFA — companhia de Estados como Mônaco, Kiribati e as Ilhas Marshall. Em 2014, o então presidente da associação, Domenico Ruggiero, resumiu o espírito da coisa: preferia manter o time amador, porque entrar para a FIFA “seria como um negócio”. O time atual é comandado pelo técnico italiano Massimiliano Strapetti. Nem a conversa entre o papa Francisco e o presidente da UEFA em 2022 mudou esse cenário — o futebol vaticano segue, por opção, fora do circuito competitivo internacional.
Fontes e galerias fotográficas
- FIFA — Football thrives in Vatican City
- Sport in Vaticano — site oficial e arquivo de eventos
- Sport in Vaticano — Partita della Pace
- FIGC — 50 anos da ASD Sport in Vaticano
- FIGC — galeria da camisa comemorativa
- Vatican News — Vaticano feminino x Pichanga, 2023 (alemão)
- Kicker — Vaticano em Berlim, 2024
- Vatican News — equipe feminina em Berlim, 2024 (alemão)
- Vatican News — Vaticano x Berlim, junho de 2026 (alemão)
- Wikipédia — “Vatican City national football team” e “Vatican City Championship”
- Cobertura de imprensa brasileira e vaticana sobre a morte do papa Francisco (abril de 2025), a eleição do papa Leão XIV (maio de 2025) e o Jubileu do Esporte / Jubileu dos Esportistas (junho de 2025 e 2026)