A revista Placar mapeou 500 times do Brasil em uma edição especial que é hoje um documento histórico do futebol nacional. Em cada ficha, além de endereço e títulos, a Placar registrou o uniforme (U:), a mascote (M:), o apelido (A:) e uma curiosidade por clube. O que emergiu desse levantamento é um retrato fascinante e muitas vezes cômico da identidade visual do futebol brasileiro — das escolhas mais surpreendentes de cores e nomes até os uniformes que carregam histórias que nenhum torcedor esperaria encontrar. Este é o artigo que reuém as mais inusitadas.
1. O Flamengo que não tem nada a ver com o Flamengo
No interior de Pernambuco existe um Flamengo Esporte Clube de Arcoverde — fundado em 1959, com camisa listrada em vermelho e preto, mascote chamado Tigre do Sertão e apelido de Tiguera. A curiosidade registrada pela Placar é direta: “Este Flamengo não tem nenhuma relação com o Sport Club Flamengo, de Recife, primeiro campeão pernambucano da história.” Há pelo menos quatro times chamados Flamengo no estado de Pernambuco. A camisa vermelha e preta percorre o Brasil inteiro — do Maracanã ao sertão nordestino.
2. O Independente do Amapá que copiou o Palmeiras — menos o nome
O Independente Esporte Clube, de Santana (AP), usa uniforme verde, branco e verde, tem um escudo muito semelhante ao do Palmeiras e até um nome parecido com o Internacional. A curiosidade da Placar explica tudo: “O Independente usa o uniforme e tem um escudo semelhante ao Palmeiras. Porém, ao contrário dos rivais do Amapá (Santos e São Paulo), optou por não usar o mesmo nome do clube em que se inspirou.” É uma rara manifestação de originalidade no meio da cópia: pegou tudo do Palmeiras, exceto o nome.
3. O Santos do Amapá que copiou até o escudo
Falando em cópias: o Santos Futebol Clube de Macapá (AP) “adotou o nome, as cores e o escudo do time paulista. O escudo, aliás, parece não ter sido lapidado à altura do time de Pelé e Cia.” O clube disputou duas Copas do Brasil (2000 e 2001) e foi eliminado logo de cara nas duas vezes. O curioso é que o responsável pelas duas derrotas foi o mesmo time: o Remo. Um Santos que perde sempre pro Remo — Pelé não aprovaria.
4. O Colo-Colo da Bahia que foi ao Buenos Aires para trazer o uniforme
O Colo-Colo Futebol e Regatas de Ilhéus (BA) tem uma história de origem impressionante. Em 1948, o diretor José Haroldo de Castro foi à Argentina e trouxe um uniforme do Boca Juniors — azul e amarelo. O design agradou a todos e o clube adotou a mesma camisa do time porteño. O nome, no entanto, foi inspirado em outra equipe sul-americana: o Colo-Colo, do Chile. Resultado: camisa argentina, nome chileno, clube baiano. Uma obra de sincretismo sul-americano.
5. O Corinthians do Rio Grande do Norte que não escreve Corinthians
Em Caicó (RN), existe o Atlético Clube Corintians — assim mesmo, sem o ‘h’. A Placar explica com detalhe: “Não é erro, não. O nome deste Corintians é o mesmo com acento e sem ‘h’. A ideia dos fundadores era homenagear o Timão de São Paulo, mas sem estrangeirismos. A âncora e os remos do escudo foram mantidos, embora Caicó fique no sertão potiguar, onde a única atividade aquática consiste em virar copos de água goela abaixo.” Uma homenagem a um time de futebol fundada por pessoas em pleno sertão à beira de nenhum rio.
6. O time com a mestra de costura como mascote
O Ypiranga de Santa Cruz do Capibaribe (PE) tem como mascote uma máquina de costura — referência ao grande polo de produção de roupas em que se transformou a cidade pernambucana. A camisa do clube é azul, e o apelido é “Máquina de Costura”. Em um país onde leoões, galos e tigres dominam as mascotes, um time que se identifica com um equipamento têxtil é uma raridade absoluta.
7. O time onde os jogadores atravessavam hemisférios durante os jogos
O Cristal, de Macapá (AP), manda seus jogos no estádio Milton Rodrigues, mais conhecido como Zerão. O motivo do apelido: o meio-campo fica exatamente sobre a Linha do Equador, no marco zero. Durante as partidas, quando a bola passava de um lado ao outro, os jogadores atravessavam do Hemisfério Norte para o Hemisfério Sul diversas vezes. A camisa vermelha do Cristal é, portanto, um dos poucos uniformes de futebol no mundo que cruzou o Equador em campo.
8. A mascote que decidiu a camisa: o Ipatinga e as 12.538 cartas
O Ipatinga Futebol Clube (MG) realizou um concurso para escolher a mascote do clube. Foram recebidas 12.538 cartas de voto. Em segundo lugar ficou o Gato (845 votos), seguido por Periquito (713) e Papagaio (202). O vencedor, com 2.529 votos, foi o Tigre — mascote eleito pela população. A camisa branca do clube passou a ostentar o Tigre como símbolo. Uma das poucas mascotes verdadeiramente democráticas do futebol brasileiro.
9. O Moto Club que começou para andar de moto
O Moto Club de São Luís (MA) foi fundado em 1937 por jovens motoqueiros que praticavam apenas ciclismo e motociclismo. Com o nome de Ciclo Moto, o clube passou a se chamar Moto Club em 1932, quando entrou no futebol. A camisa horizontal em vermelho e preto do Moto Club é uma das mais reconhecíveis do Maranhão — e revelou dois jogadores importantes: Kléberson, campeão mundial pelo Atlético Paranaense em 2001 e pela Seleção em 2002, e o goleiro Clémer, titular do Flamengo de 1997 a 2001. Um clube nascido para andar de moto que revelou um campeão do mundo.
10. O Vasco do Acre que mandou 10 jogos de camisa para o pobre
O Vasco da Gama de Rio Branco (AC) tem a mesma camisa, escudo e até o mesmo nome do clube carioca — com faixa diagonal preta no peito. A curiosidade da Placar é impagável: em 2000, o presidente do Vasco do Rio de Janeiro, Euríco Miranda, mandou 10 jogos de camisa para o primo pobre do Acre, além de 120 bolas e 90 pares de chuteiras. A identidade visual do Vasco percorre o Brasil de ponta a ponta — do Maracanã à Amazônia, a faixa diagonal é sempre reconhecível.
11. O time que mudou de nome para sair da imagem de uma destilaria
Em 1995, o Destilaria Futebol Clube de Cabo de Santo Agostinho (PE) resolveu que aquele nome estava prejudicando a imagem do clube. O time tomava muita cachaça de uma suposta destilaria e era frequentemente goleado. Mudou o nome para Cabense, em homenagem à cidade, e trocou a camisa. A Placar resume: “Não que o time tomasse muita cachaça de alguma saposta destilaria. Tomava muita goleada mesmo.” Uma mudança de identidade visual motivada por excesso de gols sofridos.
12. O torcedor do Rio Negro que pendurou a toalha vermelha
Na década de 70, os torcedores do Rio Negro (AM) sabiam de antemo que seu time faria uma boa apresentação frente ao adversitário. Se o goleiro Clóvis pendu rasse uma toalha vermelha nas próprias redes durante o aquecimento, certamente o Rio Negro não seria derrotado. A camisa branca com faixa horizontal preta e vermelha do clube ficou ligada para sempre a essa lenda do goleiro. Clóvis orgulhava-se de nunca ter perdido um Rio-Nal com a toalha pendurada.
13. O time mais antigo do Brasil que muita gente nunca ouviu falar
O Sport Club Rio Grande, fundado em 19 de julho de 1900 no Rio Grande do Sul, é o clube de futebol mais antigo do Brasil em atividade. É anterior ao Fluminense (1902), ao Santos (1912) e ao Corinthians (1910). A camisa do Rio Grande é listrada em verde, vermelho e amarelo — uma combinação inusitada que existe no futebol gaúcho há mais de 120 anos. O hino do clube diz: “Do passado ao presente glorioso, o teu nome fulgura e se expande, porque é o mais velho e garboso, do Brasil e do nosso Rio Grande.” Não há exagero.
14. O São Caetano que usa roxo — e por quê
O São Caetano (SP) usa azul, azul e azuis — uma camisa que a Placar descreve como simplesmente “Azul”. Mas o clube ficou famoso em 2002 pela camisa roxa que usou durante a campanha que quase lhe rendeu o título da Libertadores. A peculiaridade: o apelido da equipe naquela época era “Azulim”. O São Caetano é um dos poucos times brasileiros com história relevante no futebol nacional que adotou o roxo como cor do uniforme alternativo — uma tonalidade pratic amente inexistente no futebol brasileiro.
15. As cores mais comuns — e por que o azul domina
O levantamento da Placar dos 500 times revelou algo curioso sobre os uniformes do futebol brasileiro: a cor dominante nas camisas principais é o azul, presente em 77 times — mais do que o branco (67), o verde (55), o vermelho (43) e o preto. O azul e branco vertical é a combinação mais frequente no futebol nacional. Em um país verde-amarelo, o futebol é fundamentalmente azul.
16. As mascotes mais estranhas do futebol brasileiro
A Placar catalogou os bichos mais incomuns adotados como mascote pelos 500 times. A lista incluí: Alemazinho (15 de Novembro-RS), Burro (Taubaté-SP), Calhambeque (Auto Esporte-PB), Camaleão (Gurupi-TO), Dinosauro (Sousa-PB), ET (Varginha-MG), Hulk (Tocantins-TO) e Máquina de Costura (Ypiranga-PE). O futebol brasileiro é o único esporte no mundo com um time cujo símbolo é um alienígena — e outro cujo símbolo é uma linha de montagem têxtil.
17. O São José que tentou um patrocínio com uma fábrica de tintas
O São José (RS) tentou, em 1996, uma parceria com a indústria de tintas Renner para reeditar o lendário uniforme Renner (Campeão do Estado em 1954). Até mudou o uniforme, que passou a ser uma camisa vermelha e branca e uma faixa branca diagonal. Mas a ideia deu muito certo: o time era muito fraco e a empresa desistiu após um ano de contrato. Uma das histórias mais curiosas de parceria entre camisa e patrocinio no futebol gaúcho.
18. O Gazelaó que vive no bairro e virou nome de mascote
O São Gabriel (RS) tem uma origem peculiar: fundado em 1979, o clube teve um belo início no futebol gaúcho. Em seu segundo ano, foi vice-campeão da segunda divisão e, em 1981, disputou a Primeirona. A mascote do clube, o Boi, veio do nome do bairro onde o clube nasceu — e não, como muitos pensam, de alguma tradição pecuária local.
O futebol brasileiro é vasto demais para caber apenas nos grandes clubes que aparecem na TV. Por trás de cada camisa — mesmo a de um time do interior do Acre ou do sertão pernambucano — existe uma história, uma comunidade, uma identidade. E todas essas camisas, grandes e pequenas, famosas e desconhecidas, merecem ser originais. Na Garrincha Shirts, preservamos essa cultura desde 2002 — porque o futebol real está no tecido, não na réplica. Confira as avaliações dos nossos compradores em Trustindex.